sábado, 22 de fevereiro de 2014

Corpos e Números


Abraham Harriton (1893-1986) - 6th Avenue Unemployement Agengy (1937


O que é preciso é criar quanto antes novas elites […] Não elites que nos subjuguem – mas elites que nos conduzam para a beleza e para a justiça...”

Raul Brandão, Memórias, v. III (ed. Póstuma,1933)


Rudolf  Dischinger (1904-1988) - Ameaça (1935)


Embora numa linguagem datada, esta aspiração brandoniana tem hoje toda a sua pertinência tanto no plano nacional como no europeu. A falência de ideais coloca-nos sob o jugo absoluto do poder financeiro e dos seus servis executores políticos, habilitados com uma retórica contabilística e de endeusamento dos mercados. Mas, paradoxalmente, estes nem sequer fizeram ou fazem do país ao menos uma mercearia bem organizada. A cultura é tratada como luxo parasitário, o supérfluo que apenas alguns pretensos intelectuais se atrevem a defender. O circo mediático cumpre a sua nobre função de aniquilamento do que resta do espírito crítico dos portugueses. Mas há outros luxos a combater, tal o caso do democrático direito à Saúde e à Educação. Tudo em nome da nobre missão dos actuais governantes de salvar o país da bancarrota. Eles têm a bandeira na lapela, um sinal para ocultar a imperativa acção de resguardar os interesses usurários dos nossos credores, nobre cruzada nesta mascarada trágico-cómica de venda de Portugal a retalho. E, numa Europa, feita nau à deriva, de ajustamento em ajustamento, lá vamos disciplinadamente ao fundo.


José Viana Dionísio (1922-2003) - Ordem (1946)

Não são apenas os jovens qualificados a emigrar, mas também gente desesperada com mais de 50 anos. Basta andar na rua para perceber o estado calamitoso a que chegámos: lojas e fábricas fechadas, conversas fortuitas sobre profundas carências, gente desempregada ou explorada até ao tutano que vai desistindo de viver. Corpos dilacerados que os burocratas de serviço não querem ou não sabem contabilizar. Quanto ao redentório “milagre económico” proclamado pelo arguto Pires de Lima, vem o FMI com o seu relatório imperial a proclamar mais austeridade até ao dia do Juízo Final.


Joe Jones (1909-19363) - Descarregadores (1934)

Entretanto, o fascismo, nas suas diversas variantes, vem paulatinamente ocupando em vários países europeus o lugar vazio destas fictícias democracias. O cenário condiz com as palavras, pois, como afirma o douto dirigente do PSD Luís Montenegro, “a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”. O odor fascizante deste comentário não deixa dúvidas. O país já não são as pessoas, mas uma mirífica abstracção ideologizada típica dum poder totalitário. O país é certamente, nesta óptica, um deserto apenas ocupado por números manipulados ao sabor da estratégia desta “elite” simultaneamente apatetada e desumana que nos coube em sorte, ou melhor, em desgraça. Os corpos destroçados deste país terão ainda capacidade para mandar estes bonifrates para o definitivo deserto de onde por lapso dos deuses nunca deveriam ter saído? Cabe a este povo sem rumo reencontrar-se e dar a conveniente resposta.


Dorothea Lange (1895-1965) - White Angel Breadline (A Sopa dos Pobres), S. Francisco, 1933



Dominguez Alvarez (1906-1942) - Enterro Pobre (1929)


Renato Guttuso (1911-1987) - A Morte de um Herói (1953)


1 comentário:

  1. Bom saber que tem um blogue, Professor.
    Abraço e bom fim de semana.

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